terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os russos são um povo frio? São rudes?

Russo, segundo o cinema americano e mitos populares no ocidente

Antes de responder a essa pergunta, vamos questionar uma coisa, o que é uma "pessoa fria"? Os brasileiros são um povo frio?

Recordo-me quando estava no metrô de São Paulo em 2011, voltando para casa em pleno horário de pico, em pé. Puxei conversa com uma moça que estava lendo, ela clamou que eu não era de São Paulo, dizendo que percebeu isso por que as pessoas daquela cidade nunca puxam conversa no metrô. O marido da minha tia, que mora há mais de 25 anos na cidade, comentou que em São Paulo infelizmente uma pessoa pode ficar furiosa só em alguém olhar para ela. Também me recordo há alguns meses atrás ajudei um casal paulista a encontrar um ponto de referência em Fortaleza e eles me agradeceram, dizendo que todos em Fortaleza eram muito atenciosos com eles, e lá eles precisavam "aprender isso com os nordestinos".

Lendo os noticiários nacionais, vemos pessoas da cidade de São Paulo que ficam furiosas simplesmente por causa de uma ciclovia, dizem que "o mundo está perdido" por causa de uma simples faixa no trânsito, vemos senhoras supostamente educadas que ficam furiosas por causa de um mendigo negro e deficiente físico, que chamam policiais "analfabetos" por cumprir seu dever, vemos jovens da burguesia, pessoas supostamente educadas e de nível superior, pedirem o "afogamento de um povo inteiro" por causa de um voto. Médicos estrangeiros que vem ajudar o povo são recebidos a gritos de desprezo por profissionais de medicinas, pessoas que supostamente receberam educação, pessoas de "bom nível social" em uma capital nordestina. Pessoas que acham que por ter um sobrenome europeu "trabalham mais e sustentam o resto do país", como se o nordestino não levantasse por vezes 3 da manhã para ganhar o sustento da família trabalhando até tarde da noite. No Brasil é fácil ler sobre casos onde mulheres ciumentas cortam o falo de seus maridos, onde maridos ciumentos matam a esposa a sangue frio, onde garotões bem nascidos tocam fogo em um índio, onde pai de família esquarteja um porteiro em seu condomínio. Falando de minha experiência pessoal, já fui chamado a atenção no trabalho em duas diferentes capitais nordestinas por tomar chimarrão em plena hora de descanso. Já presenciei funcionários de empresas aéreas chamando passageiros como quem toca o gado, nada parecido com os alertas aos "respeitáveis passageiros" do metrô de Moscou. É preciso ter isso em mente antes de questionar se povo x ou y é "rude".


Já morei em diversos lugares do Brasil e também já viajei por muitos lugares. Se vou a um bar, por exemplo, é normal ver brasileiros conversando e sorrindo, mas se vou a um transporte coletivo onde as pessoas voltam do trabalho eu não vejo ninguém sorrindo, exceto durante a Copa. É possível ficar ainda mais irritado nesse tipo de transporte devido a passageiros que não conheceram uma grande invenção da humanidade chamada "fone de ouvido", ou mulheres chateadas por causas de espertalhões que delas abusam em uma lotação. Falando em questões triviais, uma matéria exibida em um jornal de televisão demonstrou que muitas pessoas fogem da ideia de um abraço ou de um beijo. No Brasil uma mulher normalmente não aceita o convite de um homem para sair, e se tiver namorado aí que não aceita mesmo. Em um estudo feito em um jornal de TV, um homem médio também evita um convite de outro homem para pegar um cinema, exceto na companhia de outros homens. Muitas pessoas também evitam responder a um bom dia, um primo meu de Minas contou-me que ao chegar em Recife um indivíduo respondeu-lhe de forma grosseira a um bom dia, e um amigo cearense comentou como um carioca respondia-lhe de forma grosseira, usando-se de ironias, a um bom dia. Agora que falamos dos brasileiros, vamos falar dos russos. 

Com torcedores russos de Vladivostok (Extremo-Oriente) em Fortaleza, em 2014

Antes mesmo de ir à Rússia, me deparei com um significativo número de russos em Fortaleza, especialmente durante a Copa do Mundo e o evento do BRICS. Durante a Copa, conheci estrangeiros de diversas nacionalidades, havia pessoas que queriam tirar fotos com brasileiros, mas que no dia seguinte sequer sabiam o seu nome ou lhe davam bom dia. Havia alguns que demonstravam um puoco de polidez, se você falava com um americano limitavam-se a dizer your English is good, sem demonstrar qualquer interesse na interação com os habitantes do local. Entretanto quando se tratava de russos a coisa era totalmente diferente. Eles não apenas diziam que eu tinha um bom russo, como diziam "vamos lá, irmão, torcer juntos pela Rússia", ofereciam-me cerveja, lanches, cigarros, coisas que cheguei a recusar várias vezes por causa da minha garganta, por educação e por que não fumo. Quando trabalhei como intérprete de um casal russo eles fizeram questão de que eu fosse assistir ao jogo do México e Holanda com eles, me convidaram para sair com eles durante a noite, mesmo sem a necessidade. Durante o BRICS não foi diferente, em especial pelo mais notável cidadão russo, atualmente, o presidente Vladimir Putin. No Hotel Marina Park, onde ele se reuniu com o presidente sulafricano Jacob Zuma, ele fez questão de entrar pelo salão principal e cumprimentar a todos os presentes, incluindo o diretor do hotel. No dia seguinte, recebi de sua guarda pessoal, o FSO, dois grandes presentes, um estandarte do FSO e um par com caneta e lapiseira. Um dos vários integrantes do Kremlin, durante sua saída, chamou-me de forma séria, achei que se tratasse de uma reclamação. Ele me abraçou e me convidou para ir a Moscou, disse que "eu encontraria a si mesmo na capital russa". Dito e feito, parti para Moscou meses depois.

Ao chegar em Moscou, tomei um ônibus para a residência de uma amiga, eu vi pessoas sérias como vejo pessoas sérias nos ônibus do Brasil. Minha amiga Adriana apresentou os seus amigos de uma bodega, lá trabalhavam senhoras da Ucrânia, Armênia, Tadjiquistão e de outras ex-repúblicas soviéticas. Todas me receberam de forma entusiástica, diziam à minha amiga para "cuidar bem de mim" (é normal que na Rússia as mulheres tratem bem os homens, sem necessariamente ter interesse passional), convidaram-me para cantar em um aniversário, mas eu sequer tinha chegado em casa ainda.

Em Moscou e em outras cidades eu tive a oportunidade de encontrar-me com vários amigos e amigas que chegaram a me convidar para suas casas, que me levaram a diversos locais interessantes de Moscou. Uma das primeiras russas com quem me encontrei tem uma beleza notável, de formas exuberantes, namora há algum tempo um jovem russo, mas encontrou-se comigo, fomos à principal catedral da Igreja Ortodoxa, tiramos fotos, passeamos, almoçamos e nos despedimos. Eu acho pouco provável que isso se daria de forma tão natural no Brasil, quase impossível, num país onde as pessoas tendem a enxergar apenas maldade numa simples relação.

Ainda com relação à hospitalidade russa, eu tive que cessar elogios a certas coisas que os russos tinham, caso contrário iria "passar um pente" na casa de cada russo que eu visitava. Sabendo que os russos gostam de trocar presentes (o filme onde o ator austríaco Arnold Schwarzeneger interpreta um miliciano russo não mente no final), comprei diversos presentes para cada um que eu visitasse. Era comum eu chegar nas casas e ganhar sempre um presente, dentre os quais: livros, imã de geladeira, um ushanka, um uniforme de fuzileiro naval russo, bebida típica, etc. Para se ter uma ideia de quem são os russos, cheguei na Rússia com 23 quilos na bagagem, voltei com 40 quilos, dentre compras e presentes.

Um dos momentos mais emblemáticos e simbólicos foi em uma visita a um posto de ajuda à Milícia Popular da Novorrússia, um país que se forma no Leste da Ucrânia durante os conflitos. Lá eu levei uma doação feita por jovens brasileiros e uma senhora americana, mas ao questionar sobre a situação e demonstrar meu apoio eles ficaram impressionados. Um general cossaco (chegou a me mostrar seu documento de general da reserva) chegou a me presentear com botas de oficial. 



Houve algumas situações engraçadas. Estando no centro de comércio Planyernaya tarde da noite, fui passar meu cartão no leitor eletrônico da roleta, mas estava sem fundos, então uma senhora logo atrás disse que me daria uma "forcinha", então ela passou o cartão e a roleta se abriu. Ela me sugeriu que avançasse e passasse junto com ela, eu fiquei impressionado com a generosidade daquela senhora, mas não queria fazer o errado, pois estando ali como brasileiro, representava não apenas a minha pessoa, como também o meu povo, o povo brasileiro, e não queria fazer o errado. Então uma senhora do controle de ônibus disse que era errado, a bondosa senhora me disse que não ligasse para ela, mas não pude avançar, comprei os créditos e comentei como muitas pessoas são bondosas na Rússia.


É interessante frisar que na Rússia, como no caso descrito, a generosidade não veio apenas de "amigos com quem eu me relacionava há anos pela internet", mas de pessoas que até então eram totalmente desconhecidas. Um caso notável foi durante a minha descida na Estação Biblioteca V. I. Lenin. Eu sequer planejava visitá-la, até que vendo no metrô, lembrei da biblioteca descrita em meu manual de russo. Saindo da estação, percebi uma pessoa de cabelo curto e loiro, quando lhe perguntei sobre a biblioteca, ela se virou e percebi que era uma linda moça com um visual bastante diferente, cabelos curtos e raspados nas laterais (em geral as russas tem cabelos longos), mas feminina, ela me falou a direção da biblioteca e disse que poderia me guiar até lá, não só me guiou como tirou fotos minhas e ainda deixou seu contato. Quando a contatei, ela acabou me dando um presente, falou com a mãe de seu namorado para organizar para mim um tour pela Biblioteca V. I. Lenin, incluindo áreas inacessíveis por estrangeiros, o que se concretizou.

E não foram apenas civis que conheci. Antes de visitar a Rússia li muitas coisas sobre "policiais corruptos e grosseiros", mas foi justamente o contrário no metrô de Moscou e em outros lugares. Os policiais foram geralmente prestativos, deram informações, não fizeram qualquer insinuação nem pediram meu passaporte. Uma situação foi ainda mais interessante, em Ulyanovsk, uma pequena cidade onde nasceu o revolucionário Lenin e viveu o grande escritor Goncharov. Quando fui tomar o trem para Kazan, cedo pela manhã, eu conferia a minha passagem, até que no canto da vista vi dois policiais vindo em minha direção. Ambos se apresentaram, não sei se por eu estar usando as botas de oficial que ganhei de presente, falaram onde o trem se encontrava e até me ajudaram com a bagagem até a plataforma.

Em verdade, quase tudo que até então eu havia lido sobre russos "grosseiros e frios" acabou indo para o ralo enquanto mitos criados por pessoas que jamais foram à Rússia, por pessoas que estiveram na Rússia, mas não falavam russo e por isso nada entenderam, por pessoas preconceituosas ou em alguns casos mesmo por pessoas pagas para atacar a Rússia e assim prejudar o seu turismo e desumanizar o povo russo. Antes de se falar no russo, há que recordar e comprovar a veracidade de uma citação do grande escritor ucraniano Nikolay Gógol:


"Há camaradas que estiveram em outras terras, mas camaradas como na terra russa não há. Amar tanto como a alma russa, amar não com a mente, mas com aquilo que Deus colocou dentro de você, amar tanto assim, ninguém pode" (GÓGOL, N. Taras Bulba)

3 comentários:

  1. Olá Cristiano. tenho acompanhado seu blog e é muito informativo sobre a Rússia. Obrigado. Meu nome é Walter Veroneze e moro no Brasil (Dourados-MS) e desde 1985 sou apaixonado pela Rússia. Estive lá em duas ocasiões. Uma com minha esposa em 2012 visitando o anel de ouro e outra agora em 2016 visitando Moscou, Izhevsky e Votkinsky onde meu filho foi fazer intercambio (agosto-15 a jumho-16). A cada dia me apaixono ainda mais pela Rússia. Tenho inúmeras lembranças de lá. Meu filho voltou com um aprendizado muito bom e fez incontáveis amizades (como você mesmo diz, a hospitalidade russa é incrível). Gostaria de saber três coisas por favor:
    1. como ele poderia utilizar o conhecimento do russo para sua ajuda profissional (como tradutor, interprete, trabalho, etc.)
    2. ele quer fazer mecatrônica e deve começar os preparativos agora, estive vendo que várias universidades na Rússia são ótimas, você indicaria fazer lá?
    3. O que você me fala da organização ALIANÇA RUSSA pois ele teve uma aprovação aqui mas estava fazendo intercambio na Rússia na ocasião, bem como da ALAR -Associação Latino Americana Russa?

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    1. Prezado Walter,
      Infelizmente, uma vez que consegui tudo por conta própria, eu desconheço a organização Aliança Russa, e como nunca a usei, não posso emitir o meu parecer. O mesmo sobre a ALAR.
      É fato, entretanto, que se o problema é onde ficar, é fácil alugar um quarto num bom apartamento russo. Muitos russos vivem em regime de "Komunalka", isto é, um apartamento onde moram várias pessoas, cada uma em seu quarto, compartilhando cozinha e banheiro. Eu vivo em Komunalka e nada tenho a reclamar, algumas saem muito em conta se considerarmos o custo de uma grande cidade.
      Quanto ao intérprete, ele pode buscar um birô de traduções, que muitos precisam de pessoas com conhecimento técnico da área para garantir uma boa tradução e ganhar um bom dinheiro como freelancer. É comum no mercado de traduções atuar desta maneira, o importante é fazer um bom marketing de si, ter domínio da área e um bom número de clientes estáveis.

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  2. Oi, Cristiano. Muito interessante esse ponto que você abordou, lembrando a parte não amigável do povo brasileiro e explicando a hospitalidade russa... gostei bastante do seu texto!
    Confesso que deu até uma vontade de ir pra Rússia em breve :)
    Um abraço e até mais!

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